26.11.12

Quem é Claudio cruz??

Aos 43 anos de idade, 20 deles como spalla da Osesp, Cláudio Cruz comenta nessa conversa sua trajetória como músico. O garoto paulistano, filho do luthier João Cruz, foi aluno de Maria Vischnia e de Erich Lehninger. Chegou à Osesp em 1985, aos 18 anos. Após um período de estudos nos Estados Unidos, precisamente no dia 15 de março de 1990 – véspera de seu aniversário de 23 anos –, Cláudio assinou o contrato para serspalla. Hoje o primeiro violino da nossa Orquestra multiplica atividades musicais. Além do violino (e da viola), tem atividade cada vez mais expressiva como regente; apresenta-se em recitais e em quartetos, no Brasil e no exterior; dá aulas de instrumento e dedica-se ainda à revisão e resgate de obras de compositores brasileiros.
Vinte anos como spalla! Não é pouca coisa. Mas como foi sua entrada na Osesp?A primeira vez que toquei na Orquestra foi em 1985. Ganhei o concurso Jovem Solista da Osesp e, em seguida, o maestro Diogo Pacheco me convidou para o Jovem Solista da Paraíba, com o Maestro Eleazar de Carvalho. Saí de lá membro da Osesp. A Orquestra tinha tração traseira e tração dianteira: nas últimas estantes ficavam os jovens talentos; nas primeiras, os músicos mais velhos, já consagrados, como o Airton Pinto e Clemente Capela. Toquei na fila durante algum tempo e depois saí porque queria estudar. Fiz vários cursos, inclusive fora do Brasil. Tive também uma passagem pela Osusp. Mas toquei na fila da Osesp por uns três anos, a partir de 85. Eu era um menino, tinha 18 anos...
Como foi a volta?Estava em Houston, nos EUA, em 1989, e liguei para a casa do Maestro Eleazar em New Haven, pensando em lhe fazer uma visita. Ele falou: “Professor Cruz, a cadeira de spalla está à sua disposição”. Eu disse que só queria visitá-lo, mas o maestro encerrou a conversa: “Não, o senhor vai voltar para o Brasil, apresente-se em 5 de março. Passar bem”. Fiquei em conflito. Falei com meu pai, falei com meu professor, Kenneth Goldsmith, que me aconselhou a não desperdiçar essa oportunidade. Dia 15 de março de 1990 assinei o contrato com a Osesp.

Eleazar ainda regia.
Trabalhei com ele até 1996. Quando cheguei houve protesto dos mais velhos, achavam que eu não estava pronto para o cargo. O Maestro me chamou e disse que só havia uma solução. Perguntou qual concerto eu tocaria na próxima semana, pois estava cancelando o solista. Argumentei que não havia tempo razoável para me preparar, mas a resposta foi: “Diga qual o concerto”. Continuou me pedindo nomes de obras que eu tocasse, mudou todo o repertório das apresentações do ano: seriam em grande parte peças com solos de violino. Disse que voltaríamos a conversar após seis meses. Encerrado o prazo, bati em sua porta e ele já estava rindo, disse para eu ficar tranqüilo e voltar ao trabalho.

Você está com 43 anos e há 20 é spalla da Osesp. Hoje, depois de toda essa experiência de vida, quem é Cláudio Cruz para o Cláudio Cruz?Sou filho de um luthier, não fui agraciado com bolsas de estudos, casei cedo, tive três filhos; não tive uma vida muito fácil, mas nunca deixei de estudar, não abandonei o sonho. Tocava em tudo quanto é orquestra e restaurante, até as três horas da manhã, juntava dinheiro e ia para os EUA estudar. Mesmo depois de estabilizado profissionalmente como violinista, ainda fui atrás de aprender a reger. Agora, estou louco para gravar isso, gravar aquilo, tenho muitos concertos para fazer. Então, acho que sou uma pessoa determinada. Essa força que recebo é o traço mais importante da minha personalidade. Eu poderia fazer o que muitas vezes sinto vontade: sentar num barzinho e tomar cerveja a tarde inteira, ver o dia passar jogando dominó, lendo jornal.
Adoro isso. Nunca fiz, mas sei que adoro. Errei muito em relação ao tempo que não dediquei aos meus filhos, à minha esposa, por ficar trancado dentro de um quarto, estudando. Às vezes me arrependo, mas continuo errando. é isso que me mantém e faz com que eu possa brigar de igual para igual com as pessoas que tiveram acesso a professores e oportunidades melhores.
Não posso reclamar. E a melhor sorte que tive foi a Osesp, o cargo de spalla. Enfim, acho que a determinação é importante. Ensino isso aos meus alunos: não desistir, se têm um sonho. Nem sei mais que sonho eu tenho... mas continuo determinado.


                                                                                                 




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